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quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Manuela D’Ávila: Brasil é maior que o medo e o ódio

15 de novembro de 2017 - 13h02 



Foto: Caroline Ferraz/Sul21
  
“2018 é o momento de discutir o futuro do Brasil, e não o passado. A gente tem uma caracterização política muito firme. Em 2016 houve uma ruptura, um golpe parlamentar e, a partir disso, se abre um novo ciclo. Temos uma interpretação muito parecida com a do PT sobre o passado. Mas as saídas para a crise nós temos as nossas e eles têm as deles. Sim, a gente acredita que vai se encontrar no futuro. Mas achamos que esse futuro é o segundo turno das eleições”, afirmou.

Segundo ela, politicamente, a sua pré-candidatura defende uma frente ampla, que é a ideia de reunir setores maiores da sociedade. Mas o tema central de sua campanha é a política econômica e a retomada do crescimento. “Nosso projeto é de desenvolvimento com crescimento da economia a partir da indústria nacional, que significa emprego de qualidade com direitos sociais.”

Ao falar de suas propostas para a indústria, ela defendeu um referendo revogatório para anular medidas levadas adiante pelo atual governo, como a alteração da TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo) do BNDES, por exemplo. “Sem a TJLP a gente jamais vai ter emprego de qualidade no Brasil. Porque todos os países têm banco de desenvolvimento com taxa de juro de longo prazo para favorecer a indústria própria e de inovação, que geram empregos.”

De acordo com Manuela, a economia brasileira tem que estar a serviço do povo brasileiro. “Como a gente tem taxas de juro tão altas se elas não servem para a indústria nacional, para gerar competitividade? Como a gente tem um câmbio que não serve para a indústria brasileira?”, criticou.

Defensora dos direitos das mulheres, ela destacou que a maternidade a ajudou perceber melhor os problemas do país nessa área. “Eu consegui muito mais conectar o tema da mulher com o tema do Brasil. Porque a maternidade torna muito visível o que é um Estado não adequado às mulheres. O que representa um Estado pequeno e a ausência de creches, de escola em turno integral, para uma mãe trabalhadora?”, colocou.

A pré-candidata destacou que o Brasil é um país muito violento com as mulheres. “Pautas como salário inferior [ao dos homens] e assédio sempre fizeram parte da minha rotina de parlamentar. Mas talvez eu tenha compreendido o peso da maternidade na situação que a mulher vive no Brasil”, completou.

Em 2016, uma foto da deputada estadual amamentando a filha Laura, na Assembleia, ganhou as redes sociais. De acordo com Manuela, a repercussão da imagem fez com que ela tivesse a dimensão de como o ato de amamentar é um tabu em uma sociedade que objetifica o corpo das mulheres. “Cumprir a orientação da Organização Mundial de Saúde (OMS) é algo visto como um absurdo, um erro”, lamentou.

Ela comentou ainda a iniciativa de seu gabinete de desenvolver o “machistômetro” – um termômetro que indica atitudes machistas e orienta mulheres –, que terminou virando alvo de ataques na web. “A gente fez o machistômetro como apoio para os debates sobre violência contra mulher. Ele era bastante simples, mas acabou gerando muito impacto. Essa onda de ódio na internet acontece sistematicamente, não só com o tema das mulheres. Existem candidaturas que têm tentado organizar e potencializar o ódio e o medo”, declarou.

Segundo ela, “há pessoas que não percebem como o ódio é um instrumento político e pode sair das redes sociais para as ruas”. Manuela tem publicado vídeo na internet, num esforço de mostrar que é possível construir diálogos e soluções.

Assim como fez na coletiva de lançamento de sua pré-candidatura, a comunista respondeu àqueles que a consideram muito jovem. “Quando me candidato, falam: ‘Ela é muito nova’. (...) Este é meu quarto mandato e minha sétima eleição, e continuo eternamente jovem. Por isso, a eleição é meu elixir, nunca envelheço perante os olhos dos críticos. Fui eleita pela primeira vez quando tinha 23 anos. Agora tenho 36. É praticamente a idade do presidente da França [Emanuel Macron, 39 anos], basicamente a mesma idade do primeiro-ministro do Canadá [Justin Trudeau, 45 anos], da prefeita de Roma [Virginia Raggi, 39 anos]”, comparou.

Ao ser indagada sobre a pré-candidatura de Jair Bolsonaro, Manuela avaliou que ele não tem propostas para o país. “Quando falei que o bom senso da população é o principal adversário do Bolsonaro, é porque o medo e o ódio não são propostas para sair da crise que o Brasil vive. Fui colega dele por oito anos e sei que foi um parlamentar invisível. Ele não tem propostas sequer para as áreas nas quais estimula o ódio. Qual é a proposta dele para a segurança pública?”, provocou.

Para ela, uma candidatura de extrema direita como a dele serve para impulsionar uma alternativa de centro. “O Alckmin, por exemplo, não é um candidato de centro, mas, diante do Bolsonaro, ele pode parecer. Por isso precisamos debater ideias. Para que aqueles que defendem o fim do Estado não se passem por alternativas centristas, que não são”, disse.

Manuela reforçou que nunca tive o PT como adversário, nas eleições em que disputou. E assim será em 2018. “Nossas candidaturas sempre tentaram colocar os problemas das pessoas e da cidade no centro. Isso faz com que você enxergue os outros partidos de uma forma diferente. Tenho bastante tranquilidade com isso. Nós e o PT temos uma relação fraterna, mas somos partidos diferentes. É natural que tenhamos candidaturas diferentes e que nos encontremos, na frente, em eleições de dois turnos.”

Ela voltou a defender a participação do participação do ex-presidente Lula na eleição. “Eleição é momento de superação da crise, não de agravamento dela. Em uma eleição em que o Lula estivesse impedido de concorrer, a crise estaria agravada”, apontou.

Segundo a comunista, se Lula cometeu crimes, é preciso que haja provas. “O Lula e qualquer brasileiro têm que ser julgados pela lei, é isso que garante a democracia e a existência das nossas instituições. Enquanto não apresentarem uma prova de que ele cometeu crime, ele não cometeu crime. É assim com ele e deve ser assim como todos.”

Na sua opinião, a Lava Jato surgiu com o bonito interesse de combater a corrupção no Brasil, mas virou uma operação “absolutamente política”. “Basta ver o que acontece hoje em Brasília, os desfechos e o entorno do presidente Temer”, indicou.

À Veja, Manuela falou ainda sobre temas como a legalização das drogas. Para ela, é preciso discutir o tema na perspectiva proposta pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), unindo a sociedade para debater estatísticas. “Os números mostram que a violência aumentou a partir de uma política de guerra às drogas. O Brasil pode fazer esse debate, vinculando inclusive a tributação das drogas a campanhas educativas de prevenção do consumo de todas as drogas. O Brasil subestima o consumo de drogas lícitas”, avaliou.



 Do Portal Vermelho, com Veja

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Amigas e amigos:

A entrevista de Manuela d’Ávila na revista Veja ( abaixo) está muito boa. Madura, equilibrada, inteligente e de esquerda. 

A Manuela realça o sentido geral  que sua candidatura defende, o da retomada do desenvolvimento, nas condições atuais do Brasil e do mundo, para viabilizar um grande projeto de Nação. 

Rechaça a política do ódio e do medo, que hoje procura se impor na  cena  política brasileira, para nos dividir e nos enfraquecer. 

Todos os que acreditam e lutam por um Brasil sem ódio e sem medo, desenvolvido e justo, onde predominam direitos sociais amplos, devem divulgar essa entrevista. 

Haroldo Lima

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O Brasil é muito maior que o medo e o ódio, diz Manuela D’Ávila

Mais votada nas eleições parlamentares que disputou, deputada gaúcha afirma que candidatura ao Planalto pelo PCdoB busca saída para a crise sem radicalismos

O ano de 2018 vai ser decisivo tanto para o Brasil, que terá eleição após sucessivos escândalos de corrupção de sua classe política, quanto para Manuela D´Ávila, que anunciou que vai concorrer à Presidência da República pelo PCdoB após ter sido a parlamentar mais votada pelos gaúchos em todas as eleições que disputou – iniciou-se na carreira aos 23 anos. 
Agora, aos 36, ela deverá ser a primeira do seu partido a pleitear o comando do país desde a redemocratização. “O PCdoB tem 95 anos. A nossa história é a prova de que não lançamos candidatura para causar”, disse em entrevista exclusiva a VEJA no seu gabinete de deputada estadual, em Porto Alegre, em resposta a quem acha que o lançamento de seu nome é apenas uma estratégia para marcar território – o PT, diz, pode ser um aliado, mas apenas no segundo turno na eleição.
Formada em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), casada com o músico Duda Leindecker e mãe de Laura, de 2 anos e três meses, Manuela se apresenta como uma alternativa para o eleitor atingido pela crise econômica, mas não recorre a discursos radicais. “O medo e o ódio não são propostas para sair da crise que o Brasil vive”, disse, fazendo referência a um provável adversário na disputa, o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ)

Para ela, uma candidatura de extrema direita como a dele serve para impulsionar uma alternativa de centro. “O Alckmin, por exemplo, não é um candidato de centro, mas, diante do Bolsonaro, ele pode parecer”, disse.
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Em 2016, uma foto da senhora amamentando a filha Laura na Assembleia repercutiu no Brasil inteiro. Por quê?
Decidi amamentá-la exclusivamente até os 6 meses. Era um dia normal na Comissão de Direitos Humanos e ela começou a chorar, chorar, e eu estava no meio da fala. Fiz o que todas as mães fazem: resolvi o problema dela. Amamentar não era um ato político. A repercussão dessa foto fez com que eu tivesse a dimensão de como o ato de amamentar é um tabu na nossa sociedade, que objetifica o corpo das mulheres. Cumprir a orientação da Organização Mundial de Saúde (OMS) é algo visto como um absurdo, um erro.
A senhora sempre atuou pelo direito das mulheres. Depois do nascimento de Laura, a perspectiva mudou?
Eu consegui muito mais conectar o tema da mulher com o tema do Brasil. Porque a maternidade torna muito visível o que é um Estado não adequado às mulheres. O que representa um Estado pequeno e a ausência de creches, de escola em turno integral, para uma mãe trabalhadora? O Brasil é um país muito violento com as mulheres. Pautas como salário inferior [ao dos homens] e assédio sempre fizeram parte da minha rotina de parlamentar. Mas talvez eu tenha compreendido o peso da maternidade na situação que a mulher vive no Brasil.
Manuela D’Ávila
A deputada estadual Manuela D’Ávila (PCdoB-RS) amamenta sua filha Laura durante comissão na Assembleia Legislativa (Reprodução/Facebook)
A primeira-dama, Marcela Temer, é embaixadora do programa Criança Feliz. O que acha do programa? O papel da mulher ainda é o de primeira-dama?
A ideia é boa, inspirada no Primeira Infância Melhor [do Rio Grande do Sul], mas não existe investimento para ele, é só uma jogada publicitária. Então, na realidade, dizer que vai investir nas nossas crianças congelando o investimento em políticas sociais por vinte anos [PEC dos Gastos] é uma falácia. Sobre ser primeira-dama, quando a gente debate que “lugar da mulher é onde ela quiser”, é para fazer com que as mulheres saibam que podem estar em qualquer lugar. Não é que não possam se sentir bem no espaço de primeira-dama. É que queremos mostrar que podem estar em outros espaços também.
Seu gabinete desenvolveu e distribuiu o “machistômetro”, um termômetro que indica atitudes machistas e orienta mulheres. Esperava os ataques que recebeu na internet?
A gente fez o machistômetro como apoio para os debates sobre violência contra mulher. Ele era bastante simples, mas acabou gerando muito impacto. Essa onda de ódio na internet acontece sistematicamente, não só com o tema das mulheres. Existem candidaturas que têm tentado organizar e potencializar o ódio e o medo.
Por que a senhora faz vários vídeos para o Facebook respondendo a comentários nas redes sociais?
Há pessoas que não percebem como o ódio é um instrumento político e pode sair das redes sociais para as ruas. Esses vídeos são feitos com o esforço de mostrar que é possível construir diálogos e soluções.
Essa onda de ódio na internet acontece sistematicamente, não só com o tema das mulheres. Existem candidaturas que têm tentado organizar e potencializar o ódio e o medo (…) Há pessoas que não percebem como o ódio é um instrumento político e pode sair das redes sociais para as ruas.
Quando anunciou a candidatura à Presidência, a senhora disse que eleição é seu “elixir da juventude”. Por quê?
Quando me candidato, falam: “Ela é muito nova”. Quando é que eu vou ficar velha? Este é meu quarto mandato e minha sétima eleição, e continuo eternamente jovem. Por isso, a eleição é meu elixir, nunca envelheço perante os olhos dos críticos. Fui eleita pela primeira vez quando tinha 23 anos. Agora tenho 36. É praticamente a idade do presidente da França [Emanuel Macron, 39 anos], basicamente a mesma idade do primeiro-ministro do Canadá [Justin Trudeau, 45 anos], da prefeita de Roma [Virginia Raggi, 39 anos].
Em 2011, a senhora presidia a Comissão de Direitos Humanos da Câmara e pediu a saída de Bolsonaro do grupo. Em 2018, vão disputar o mesmo cargo. Conhece bem seu adversário? 
O Bolsonaro tem feito um esforço para aglutinar o ódio e o medo. Quando falei [no anúncio de sua candidatura] que o bom-senso da população é o principal adversário do Bolsonaro, é porque o medo e o ódio não são propostas para sair da crise que o Brasil vive. Fui colega dele por oito anos e sei que foi um parlamentar invisível. Ele não tem propostas sequer para as áreas nas quais estimula o ódio. Qual é a proposta dele para a segurança pública?
Quando me candidato, falam: ‘Ela é muito nova’. Quando é que eu vou ficar velha? Este é meu quarto mandato e minha sétima eleição, e continuo eternamente jovem. Por isso, a eleição é meu elixir, nunca envelheço perante os olhos dos críticos.
Mas Bolsonaro é um risco?
Ele é usado como alternativa de extrema direita para que que uma eventual candidatura de centro cresça, mas sem ser de centro. O Alckmin, por exemplo, não é um candidato de centro, mas, diante do Bolsonaro, ele pode parecer. Por isso precisamos debater ideias. Para que aqueles que defendem o fim do Estado não se passem por alternativas centristas, que não são.
Como a senhora se tornou candidata à Presidência? É a primeira candidatura majoritária do PCdoB desde a redemocratização.
No decorrer da construção do Congresso Nacional do partido [marcado para 17 e 19 de novembro], avaliamos que a melhor forma de apresentar as saídas que a gente interpreta como as melhores para a crise do Brasil seria lançando essa pré-candidatura. Foi um processo de uns seis meses da direção do partido comigo, de conversas, de diálogo.
A crise é grave, tanto econômica como política. Quais são suas principais propostas?
O tema central é a política econômica, retomar o crescimento. Politicamente, a candidatura defende uma frente ampla, que é a ideia de reunir setores maiores da sociedade. Como a gente faz para o Brasil entrar nesse período da revolução 4.0, da tecnologia, da quarta Revolução Industrial? Precisamos entender qual é o papel do Estado na indução desse crescimento. Precisamos saber qual é o Estado que servirá melhor o povo. De forma mais eficiente? Claro. Mas o debate sobre o Estado não é uma mera discussão sobre gestão. A gestão é fundamental, o Estado tem que funcionar, ser harmônico e ter menos burocracia. Mas a gente não pode fazer com que esse debate pareça que é o debate que vai resolver o problema da retomada do crescimento do Brasil. A gente está discutindo emprego. Melhorar gestão não necessariamente gera emprego.
Quais são as medidas efetivas para melhorar esse desempenho da indústria nacional?
Vou dar um exemplo das medidas [prejudiciais] do Temer, que é a alteração da TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo) do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) [mudança de taxa subsidiada para taxa de mercado]. Defendemos um referendo revogatório da alteração porque sem a TJLP a gente jamais vai ter emprego de qualidade no Brasil. Porque todos os países têm banco de desenvolvimento com taxa de juro de longo prazo para favorecer a indústria própria e de inovação, que geram empregos. A mesma coisa com os juros e câmbio. A economia brasileira tem que estar a serviço do povo brasileiro. Como a gente tem taxas de juro tão altas se elas não servem para a indústria nacional, para gerar competitividade? Como a gente tem um câmbio que não serve para a indústria brasileira?
Há uma crise no Congresso, com parte significativa dos deputados investigada. Se for eleita, como conseguirá negociar com os parlamentares para ter governabilidade?
O Congresso também vai ser eleito em 2018. É preciso fazer esse debate com a sociedade: quais os compromissos dos parlamentares que serão eleitos? Acredito muito no debate com a população e com o Congresso. Cito o exemplo dos 10% do pré-sal para a educação. Era um grande pacto para o futuro do país, que foi destruído agora. Mas naquela ocasião o Congresso votou a favor por causa do debate popular. Acredito nessa equação.
A senhora já disputou eleições, como a municipal em Porto Alegre, contra candidatos do PT. Como é ter o PT adversário?
Nunca tive o PT como adversário. Nossas candidaturas sempre tentaram colocar os problemas das pessoas e da cidade no centro. Isso faz com que você enxergue os outros partidos de uma forma diferente. Tenho bastante tranquilidade com isso. Nós e o PT temos uma relação fraterna, mas somos partidos diferentes. É natural que tenhamos candidaturas diferentes e que nos encontremos, na frente, em eleições de dois turnos.
Gleisi Hoffman, presidente nacional do PT, elogiou a senhora na semana passada, em Porto Alegre, mas disse que o partido não desistiu de uma aliança com o PCdoB. A sua candidatura é só para tentar ocupar o cargo de vice?
O PCdoB tem 95 anos. A nossa história é a prova de que não lançamos candidatura para causar. Se fosse para causar, poderíamos ter lançado candidatura em todas as eleições e depois retirado. Lançamos a candidatura porque 2018 é o momento de discutir o futuro do Brasil, e não o passado. A gente tem uma caracterização política muito firme. Em 2016 houve uma ruptura, um golpe parlamentar e, a partir disso, se abre um novo ciclo. Temos uma interpretação muito parecida com a do PT sobre o passado. Mas as saídas para a crise nós temos as nossas e eles têm as deles. Sim, a gente acredita que vai se encontrar no futuro. Mas achamos que esse futuro é o segundo turno das eleições.
Quando anunciou sua candidatura, a senhora disse que a participação do ex-presidente Lula na eleição do ano que vem é importante. Por quê?
Eleição é momento de superação da crise, não de agravamento dela. Em uma eleição em que o Lula estivesse impedido de concorrer, a crise estaria agravada.
Mas a senhora acha que o Lula não cometeu crime, como aponta a Lava Jato?
Eu não sou juíza, mas, se ele cometeu crimes, é preciso que haja provas. O Lula e qualquer brasileiro têm que ser julgados pela lei, é isso que garante a democracia e a existência das nossas instituições. Enquanto não apresentarem uma prova de que ele cometeu crime, ele não cometeu crime. É assim com ele e deve ser assim como todos.
E o que pensa da Lava Jato e da atuação do juiz Sergio Moro?
A operação surgiu com o bonito interesse de combater a corrupção no Brasil, só que ela virou uma operação absolutamente política. Basta ver o que acontece hoje em Brasília, os desfechos e o entorno do presidente Temer.
Eleição é momento de superação da crise, não de agravamento dela. Em uma eleição em que o Lula estivesse impedido de concorrer, a crise estaria agravada.
No início deste ano, um delator, Alexandrino Alencar, da Odebrecht, chegou a citar a senhora na Lava Jato. Como foi sua reação? Isso avançou na Justiça?
Qualquer pessoa honesta se sentiria mal de ser citada por alguém naquela circunstância. Inclusive, citada de forma triangulada, não me menciona diretamente. O caso está fora da Lava Jato e está no Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Sul, não avançou ainda. Foi direto ao TRE por estar ligado à eleição, e não a outro tipo de crime. Ele me mencionou de forma equivocada. Fala coisas que não são verdadeiras, como eu ter recebido valor em caixa dois. Na verdade, eu recebi em caixa um, está registrado. Todas as doações da minha campanha foram legais. A prova maior é que ele diz que não se encontrou comigo. Qualquer pessoa honesta se sentiria mal de ver seu nome [envolvido] porque é uma injustiça. Mas, o.k., a Justiça vai comprovar isso.
A senhora é a favor da legalização das drogas?
É preciso discutir o tema na perspectiva proposta pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), unindo a sociedade para debater números, e não achismos. Quantos jovens morrem, qual é a situação da segurança, qual o resultado concreto. Os números mostram que a violência aumentou a partir de uma política de guerra às drogas. O Brasil pode fazer esse debate, vinculando inclusive a tributação das drogas a campanhas educativas de prevenção do consumo de todas as drogas. O Brasil subestima o consumo de drogas lícitas.
Alguns grupos, como o MBL (Movimento Brasil Livre) usam o termo “comunista” como xingamento. Por que isso acontece?
Por ignorância, por não saberem o que representamos. Somos aqueles que defendem a ideia do comum, de que é possível viver em uma sociedade com acesso ao básico.
Como seria uma Presidência comunista no Brasil?
Nosso projeto é de desenvolvimento com crescimento da economia a partir da indústria nacional, que significa emprego de qualidade com direitos sociais. As pessoas olham para outros países e buscam viver como as pessoas de lá vivem. Só que elas não enxergam que essa vida de andar tranquilo na rua, de poder ter o filho matriculado em escola pública, como é na Europa, tem por trás um projeto de país. “Quero viver como o inglês, que tem transporte público, mas sou contra o Estado.” Não combina. É preciso saber que aquilo existe a partir de um projeto de nação, que serve para Inglaterra, Holanda ou França. Qual é o nosso projeto? O governo do PCdoB será um governo amplo, que reúna setores, dialoga e constrói saídas que passam pela ideia de que é possível fazer do Brasil um grande país. Acredito nisso. O Brasil é muito maior do que o medo e o ódio que tentam plantar nos nossos corações

NEIL DEGRASSE TYSON / ASTROFÍSICO : “Talvez o próximo Einstein esteja morrendo de fome na Etiópia”


Neil deGrasse Tyson diz que a educação e a ciência são as melhores armas contra o fanatismo

Arona (Espanha) 
Neil deGrasse Tyson
Neil deGrasse Tyson, depois da entrevista ao EL PAÍS. RAFAEL AVERO
Neil deGrasse Tyson (Bronx, EUA, 1958) é um dos divulgadores científicos mais reconhecidos do mundo. Este astrofísico assumiu o lugar de Carl Sagan à frente da nova versão da série Cosmos, programa de sucesso que despertou vocações científicas no mundo inteiro. Tyson estudou no Instituto de Ciência do Bronx (Nova York), um centro público de ensino médio muito seletivo e especializado em matemática e ciência. Ao final do curso, o próprio Carl Sagan o chamou para que fosse visitá-lo, com a intenção de contratá-lo para sua universidade, Cornell. Tyson preferiu Harvard, mas diz que descobriu em Sagan “o tipo de pessoa em que queria me transformar”.
O cientista comparece pela primeira vez ao festival Starmus, realizado até sábado em Tenerife (ilhas Canárias), na Espanha, onde concedeu esta entrevista ao EL PAÍS.
Pergunta. Acha que os humanos estão ficando cada vez mais irracionais, mais fanáticos?
Resposta. A primeira coisa que você pode pensar é em culpar as pessoas que se comportam dessa forma, mas eu sou um educador e tenho uma visão um pouco diferente. Acredito que haja comunidades inteiras que se sentem totalmente esquecidas. Há um grupo de pessoas perfeitamente formadas inventando coisas, ganhando mais riqueza por terem inovado. Se você não era bom nas suas aulas de matemática e ciências, se as rejeitava ou simplesmente foi formando outros valores, a primeira reação é rejeitar tudo isso, pensar: “Vocês estão todos equivocados, são meus inimigos”. Isso é muito humano. Isso nos leva a uma mudança no sistema educacional para ensinar às pessoas o que é a ciência e como e por que funciona. Não é só um conjunto de informações que você pode ignorar ou afastar porque assim decide. A ciência é a vida! Há ciência em toda parte, em tudo que nos rodeia, nos materiais, nos tecidos, nos telefones, nos automóveis... Seu celular se comunica com satélites GPS para que você saiba onde fica a casa de sua avó, e que precisa virar à esquerda para chegar. Isso nos lembra que precisamos envolver todo mundo nas novas descobertas tecnológicas, não criar um planeta onde alguns têm acesso a elas e outros não. Porque estes últimos as rejeitarão.
P. E o fato de que se ensine religião nas escolas?
R. Há dois tipos de verdades neste mundo. As pessoais, coisas que você sabe que são reais porque as sente. E há as verdades objetivas, essas que existem independentemente do que você sentir a respeito delas. E=mc2, essa é uma verdade objetiva. Não importa se você está ou não de acordo com ela, é uma verdade. As religiões são verdades pessoais. Para conseguir que alguém esteja de acordo com sua verdade pessoal, é preciso doutrinar ou convencer pela força, pela ameaça de morte. Houve muitíssimas guerras na história porque algumas pessoas tinham uma verdade pessoal diferente das de outrem. Não havia meio de resolver o conflito de forma objetiva, então se mataram para ver quem acabava dominando quem. Isto é ruim para a civilização. O melhor é que você guarde a sua verdade pessoal só para você. E, se conseguir chegar a ser chefe do Estado, ou alguém pode e deve ditar novas leis, numa sociedade livre você não deveria baseá-las nas suas verdades pessoais, porque as estaria impondo a outros que possivelmente não as compartilham. Se você vive em um país com católicos, protestantes, muçulmanos e hindus, e faz uma lei que não se baseia numa verdade objetiva, então isso se torna uma receita para a guerra. É o começo de uma teocracia, não de uma democracia. É o princípio do final de uma democracia bem informada.
“Uma das grandes tragédias da atualidade é que nem todo mundo tenha a oportunidade de ser tudo o que pode”
P. Como civilização, você acha que evoluiremos até um ponto em que deixemos de nos exterminar mutuamente?
R. Vivemos no tribalismo. Os antropólogos sabem que os humanos são tribais por natureza. Existem a minha família e o meu povo, e se você estiver de fora é meu inimigo. Você pode se perguntar que tamanho deseja que a sua tribo tenha. Inclui todo mundo sobre a Terra? Todos os seres humanos? Essa é provavelmente a melhor solução para a sociedade. Mais do que a minha família, minha idade, as pessoas que falam meu idioma, as que têm o meu aspecto... E assim você toma decisões que beneficiam a todos e não são excludentes. Para isso precisamos que a nossa civilização evolua, como você diz.
R. Não estou de acordo com a utilidade dessa ideia. Pode ser que destruamos este planeta e tenhamos de ir morar em Marte. Mas antes será preciso transformá-lo para que seja como a Terra, e enviar alguns bilhões de pessoas para lá. Se tivermos a capacidade de transformar Marte dessa forma, também podemos mudar a Terra para que volte a se parecer com o que era. Não há necessidade de ir embora. É possível arrumar as coisas aqui em vez de reformar outro planeta. Então, a solução de Hawking funciona muito bem como manchete, mas na prática ninguém faria isso, simplesmente consertaríamos a Terra.
P. Antes, você falou da desigualdade como razão da rejeição à ciência e raiz do radicalismo. Estamos melhorando ou piorando nesse aspecto?
“E=mc2: essa é uma verdade objetiva. Não importa se você está de acordo com ela, é uma verdade. As religiões são verdades pessoais”
R. A educação é chave: ter líderes bem formados, ilustrados, não corruptíveis. Em muitas nações em desenvolvimento, é a própria corrupção que impede que o país todo cresça como deveria. A gente poderia ver isso a partir de uma postura muito egoísta e dizer que o próximo Einstein talvez esteja morrendo de fome na Etiópia, e a gente nunca saberá, porque é uma criança sem comida. Como cientista, quero que seja dada uma oportunidade a todo aquele que tiver a chance de pensar em como melhora nossa civilização. Se Isaac Newton tivesse nascido na África, acho que nunca teria conseguido chegar aonde chegou. Iria só se preocupar em não morrer. É verdade que ele se mudou para o campo a fim de evitar a peste em Londres, então sabia, sim, o que fazer para sobreviver nesse contexto. Mas, se perdermos gente assim na infância, estaremos reprimindo o avanço da nossa própria civilização. Uma das grandes tragédias da atualidade é que nem todo mundo tenha a oportunidade de ser tudo o que pode.
P. A Espanha (e outros países) atravessa uma crise econômica que levou a cortes de muitos investimentos em ciência e conhecimento. O que diria ao próximo presidente do Governo da Espanha se lhe pedisse um conselho?
R. Não, minhas palavras não seriam para o presidente, e sim para os que o elegeram. É preciso que entendam por que um político deveria ou não tomar certas decisões. Achamos que seria suficiente falar com o líder do Governo porque ele está no comando, mas suponhamos que seu presidente diga: “Sim, investiremos mais em pesquisa e desenvolvimento”. E que o público diga: “Não, espere, tenho fome agora, sou pobre.” Então isso deixa de funcionar. As políticas não conseguem se tornar realidade. Precisamos entender o valor da pesquisa e do desenvolvimento. Assim, quando o Chefe de Governo decidir fazê-lo, todo mundo o apoiará, não haverá discussão, pois todos entenderão a importância da iniciativa. Se você implementa uma série de investimentos, esperando que alguns tenham rentabilidade no curto prazo, outros no médio e outros no longo prazo, sempre haverá um fluxo de descobertas que você poderá apontar como resultados dos investimentos. Isso poderia funcionar. Sempre haveria algo do que falar, algo inventado na Espanha, uma nova máquina, um novo tratamento médico, tecnologias... Essas são as economias que vão liderar a civilização ao longo do século XXI.
“Não há necessidade de ir embora. É possível arrumar as coisas aqui em vez de reformar outro planeta” 
P. Você diz que do Instituto do Bronx (Nova York), onde estudou, saíram oito prêmios Nobel, a mesma quantidade obtida por toda a Espanha, por exemplo – cuja maioria não é de ciência, mas de literatura. O que isso significa?
R. O Nobel de Literatura é algo muito bom. Comunicação, ideias, histórias. É uma parte fundamental do ser humano: compartilhar histórias de outros. Mas vocês precisam se perguntar se na Espanha se conformam com isso ou se querem mais. Se as pessoas não querem mais, está bem, mas então não podem se queixar de que a economia não seja tão competitiva como outras da Europa ou do resto do mundo. Eu perguntaria: vocês têm feiras de ciência onde os estudantes fazem seus projetos e recebem reconhecimento por pensar de forma científica sobre o mundo? Por exemplo, agora estamos no festival Starmus. Eu me pergunto onde estão as grandes empresas que deveriam estar apoiando um evento assim. Possivelmente, acreditam que isso não é importante. Estão erradas. Isso é importante para todo mundo, para seu futuro, incluído o econômico. Você pode escolher não fazê-lo, mas irá a reboque do resto do mundo, dos que inventam. Suas doenças serão curadas graças aos esforços de pesquisa de outros países. Não há nada de ruim nisso, mas você terá de pagar o preço.
“A ciência não é só um conjunto de informação que você pode ignorar. A ciência é vida!”
P. Os empresários também pensam que não há um retorno econômico nesse tipo de iniciativa...
R. Ah, claro, o retorno não virá neste trimestre, nada no balanço anual. É algo que chegará muito depois. A rainha Isabel, a Católica, sabia disso. Quando ela enviou Colombo à sua expedição, não estava pensando em recuperar o investimento no ano seguinte. Sabia que apostava no longo prazo, no futuro da Espanha. E, neste caso em particular, podemos discutir se o império espanhol foi algo bom ou ruim, mas certamente foi algo, refletia uma visão de país. Portanto, se você não reinvestir seus lucros em pesquisa, verá como eles cairão...
P. Que questões da astrofísica lhe interessam mais na atualidade?
R. Amamos o desconhecido. Estou interessado nas ondas gravitacionais, na matéria escura, na energia escura, na busca por vida. Há um multiverso? Podemos criar um buraco de minhoca? Há vida em Europa, uma das luas de Júpiter? E em Marte? Adoro todas essas perguntas. Mas a que eu mais gosto é dessa que nem sequer sei como formular ainda